Diretor Ivo Moreira  \  Periodicidade Mensal
Existe um filósofo francês chamado Paul Virilio que defende que, na sociedade actual, é a velocidade o que define os vencedores e os líderes. Nas palavras dele: “a velocidade da luz já não transforma o mundo, a velocidade da luz é hoje o mundo”. Nada mais correcto. A meu ver, a velocidade é hoje a força motriz de qualquer pessoa. Todos estabelecemos prazos - cada vez mais curtos - para alcançar objectivos e encaramos como falhanço se não os alcançarmos. A nossa sociedade hoje funciona assim. É refém da velocidade. Fazer bem é fazer rápido.
 
É certo que este é o mundo em que vivemos. Se olharmos para o que nos rodeia percebemos facilmente que as músicas se tornam facilmente epifenómenos. Basta pensar que há não muitos anos atrás, hits mundiais das pistas de dança subsistiam no tempo e, hoje em dia, é bastante improvável apanhar os hits de 2013 ou 2014 em 2015. Nos próprios radioshows dos top DJ’s da actualidade há uma quase obsessão com a novidade e a exclusividade. É mesmo difícil em grande parte deles encontrar “músicas já editadas”, quase como se as músicas por já terem sido editadas ultrapassassem o prazo.
 
Este, a meu ver é um dos principais problemas da nova geração de produtores e DJ’s que surgiu nos últimos dois / três anos. É obcecada com a velocidade. Quer, a todo o custo, fazer rápido. Mas atenção que fazer rápido não significa fazer bem. Mas o erro não está em querer fazer rápido. O erro está em só querer fazer rápido, ou, de outra forma, só admitir como sucesso fazer rápido.
 
A verdade é que o insucesso gera frustração. E, em grande parte das vezes, o insucesso e a frustração são nada mais que sinónimos de impaciência. Todos olham para fenómenos como Martin Garrix ou Madeon e pensam “também quero ser um prodígio de 16 ou 17 anos, cheio de sucesso”. Mas esquecem-se que estamos a falar em primeiro lugar de artistas com uma estrutura profissional gigantesca e em segundo lugar de artistas que, apesar da juventude, já cá andam há alguns aninhos. 
 

O talento só não é premiado quando os talentosos desistem. Parece um cliché, mas é assim que a vida funciona.

 
Por isso quando se sentirem frustrados, ou a achar que vivem num mundo cruel em que só não têm sucesso porque “o público não tem cultura”, “nenhuma agência aposta em mim”, “não tenho um bom estúdio”, “não tenho dinheiro para investir”, “nasci no país errado”, pensem que grande parte dos top DJ’s da actualidade, tirando poucas excepções, construiu uma carreira ao longo de 5, 10 ou 15 anos antes de chegar ao topo. É como em tudo, nenhum recém-licenciado começa a trabalhar como Director numa multinacional. Se for um prodígio, trabalhar e fizer tudo bem, certamente lá chegará. E sim, em Portugal como em tudo, as coisas obviamente demoram um bocadinho mais.
 
Não estou a dizer para serem passivos ou abrandarem o ritmo. Nada disso. Apenas que precisam de conviver com o tempo, tendo sempre em mente que o talento é sempre premiado. Mais tarde ou mais cedo. Pode tardar, mas é quase uma inevitabilidade. O talento só não é premiado quando os talentosos desistem. Parece um cliché, mas é assim que a vida funciona. É como diz o ditado: “Roma não se fez num dia”.
 
Hugo Rizzo
Publicado em Hugo Rizzo
quinta, 03 outubro 2013 19:19

From a paradise called Portugal...

 
Enquanto escrevo estas linhas, entra pela janela, através dos pinheiros que circundam a minha casa, uns belos raios de Sol. Está um fantástico dia de Outono, e parece-me indicado para o assunto que desta vez irei abordar na minha crónica.
Falta a banda sonora, e tal como o título sugere, terá que ser portuguesa. Olho para a prateleira dos CDs e... voilá! "Kaos Totally Mix" de 1995 salta à vista. Nem mais... Play!
 
"Kaos Totally Mix" misturado por DJ Vibe é uma obra de culto da música electrónica nacional. Lançado em 1995, representa o esplendor máximo do que foram os tempos de ouro da música de dança em Portugal. É recheado de temas emblemáticos e condimentado por uma mistura/técnica impressionante, quase mágica de um senhor chamado António Pereira, DJ Vibe. 
 
Pois é sobre estes anos de ouro que quero falar… 
Por meados dos anos 90, no mundo da música de dança, Portugal era considerado um 'paraíso'. Artistas como Underground Sound Of Lisbon (DJ Vibe e Rui da Silva), Urban Dreams (Alex Santos), The Ozone, DJ Jiggy, Kult Of krameria, J. Daniel, DJ Tó Ricciardi, L.L. Project (Luis Leite), A. Paul, DJ ZÉ-Mig-L e tantos outros, davam vida e mostravam que tínhamos um som próprio, único e característico que representava Portugal. Éramos respeitados e acima de tudo, tocados por esse mundo fora. Nesse capítulo, é importante referenciar um nome que proporcionou esse estatuto a este pequeno país. António Cunha!
 
Fundador da empresa Kaos (que a par da edição discográfica, era também empresa de eventos), juntamente com Rui Da Silva e DJ Vibe, foi um incansável lutador, não só na divulgação de talentos, mas também como impulsionador da cena de dança num país que pouco ou nada conhecia dessa vertente. "Raves" míticas, discos míticos, anos de ouro que para sempre estarão associados a este senhor que infelizmente já partiu, e deixou saudades - muitas - de tempos que parece que nos distanciamos a passos largos. Um bem-haja a António Cunha, que descanse em Paz.
 

Sempre fomos talentosos neste aspecto, e dizer que fomos mais na altura, pois as "vitórias" foram maiores, é errado, a diferença está na união que existia, vontade, e um remar numa só direcção.

Distanciamo-nos a passos largos - sim. Pois a realidade dos dias de hoje é bem diferente. E não falo da sonoridade, porque essa, sendo ela de cariz electrónico, é lógico que sofre mudanças, mutações, evoluções. Não é o som actual que estou a pôr em causa, ponho sim, a diferença de atitude, o empenho geral e acima de tudo o que não existe nos dias de hoje, a UNIÃO ARTÍSTICA! Essa força, que faz a força. 
 
Sempre fomos talentosos neste aspecto, e dizer que fomos mais na altura, pois as "vitórias" foram maiores, é errado, a diferença está na união que existia, vontade, e um remar numa só direcção. 
 
A força foi tal, que nas discotecas, como foi citado várias vezes na comunicação social especializada, "(...) tornou-se 'in' dançar um disco de música dança nacional(...)". E era verdade, existia esse orgulho na música de dança portuguesa, esse orgulho em saber que aquela música era nacional e era boa. Patriotismo na música de dança, sim, eu experimentei esse tempo. E que tempo...
 
Hoje estamos distantes do que é nosso, pouco queremos saber, pouco nos preocupamos. E aí, a culpa não é só dos artistas, da pouca união e pouca vontade de seguir um caminho único, visando o sucesso geral e não o propósito de ser o número 1. A culpa é também das rádios e televisão que pouco ou nada apostam em artistas nacionais, que pouco ou nada se preocupam em fazer para termos de deixar de importar e começar a exportar, que é o que lá fora se preocupam em fazer.
 
Hoje a rádio é um jogo de interesses, comandada por algumas empresas de agenciamento que querem vender 'peixe graúdo' internacional e que 'prostituem' artistas nacionais «a torto e a direito» e que só vêm euros. Que saudades tenho daquele dia em 1994, à hora de almoço, dentro da carrinha de trabalho do meu pai, ouvi na Rádio Comercial Underground Sound Of Lisbon - So Get Up... É verdade. Saudades...
 
A união faz a força, e nós poderíamos ser muito mais fortes, até porque já o fomos, mas temos uma mentalidade egocêntrica, queremos ser os maiores 'do nosso bairro'. A nossa geração actual da música de dança, em comparação com a dos 90, faz lembrar as duas últimas gerações da Selecção Nacional de Futebol... A nova tem mais recursos, eles têm mais estilo, são mais bonitos (Ok, alguns), mas a outra, jogava bem mais, tinha um rumo e nenhum queria ser o número 1 - eram unidos!
 
Outros tempos que saudosamente recordamos, portugueses que deixaram o seu nome na história, que muitas vezes não são respeitados nem recordados da maneira que deviam. Portugueses que queriam mais para o seu pobre país, que mesmo atravessando ao longo dos anos as dificuldades que conhecemos, sempre foi de sacrifício para que bens maiores se elevassem, e na história da nossa música de dança, esse "Paradise Called Portugal", teve o seu apogeu nos anos 90. Para quem os viveu, vai rever-se nestas minhas palavras, quem não os viveu, que reflicta, e que comecemos todos de uma vez por todas a remar para um futuro melhor.
 
Saudações musicais.
So Get Up!!!
 
Publicado em Massivedrum
sábado, 17 setembro 2016 14:30

O Convite

Se recuarmos à década de 90, final da década de 80, recordamos com saudade o desejo desenfreado por um singelo convite, uma passagem para uma festa imperdível. O convite tinha duas vias, a do correio, não sendo para todos, mas no meio das contas para pagar, era o envelope, ou mero postal, o mais desejado, ou entregue por mão na porta, por norma à saída, e já aqui havia uma selecção, ser um dos escolhidos, apesar do álcool ingerido, não passava ao lado a sensação de ser especial, "special one", um da elite restrita, colocávamos-nos a jeito para que reparassem em nós, chegávamos a empurrar quem a nossa frente ousasse atravessar-se, aquele tinha que ser nosso. Fizeram-se coleções, dava um certo status tê-los espalhados pela mesa da sala, para serem invejados. Um convite com o nosso nome, personalizado, fazia de nós gente, alguém. 
 
Para certas festas matava-se por um, entre nós questionávamos, "Tens?", "Consegues arranjar?", havia o amigo do amigo que era amigo de outro amigo que conseguia, óptimo! Mas só o convite não chegava, que serve um convite sem a roupa apropriada, o smoking nas inaugurações e aniversários, a fantasia no Carnaval, ou não, numa festa temática, o fato escuro na passagem de ano, perdão, no Réveillon. 
 

(...) venham cedo e de qualquer maneira, porque não importa se a festa é de gala (...)

 
Para elas, um dia para uma noite, um dia para compor da unha do pé a ponta do cabelo, não eram mais bonitas do que hoje, simplesmente ficavam. O tempo passa, muda, e muda-se o tempo, mudam-se as vontades, hoje, os tão desejados convites chovem, por e-mail, por sms, nas redes sociais, no Whatsapp, no Viber, na porta do carro, faça chuva ou sol, forram as calçadas, rejeitados, hoje o convite é corriqueiro, desinteressante, basta ligar para um número qualquer e de lá atende um desconhecido, para quem sou desconhecido também, e lá fica o meu nome na guest-list, de quem não conheço e não me conhece, que importa, sou mais um número, "Hoje a guest está longa, venham cedo!", venham cedo e de qualquer maneira, porque não importa se a festa é de gala, não importa o que vestes, não gastas o teu dia a preparares-te para a noite, até a roupa de dia serve. Porque o que importa é se está cheio. - Como estava? - Cheio! - E o ambiente? - Estava cheio! 
 
O aniversário deixou de ser o dia em que agradeciam aos clientes mais um ano que deram de vida, brindando-os com uma noite de bar aberto, sem custos, onde só se pagava o tabaco, quem fumava, e o bengaleiro, se tivesse algo para guardar, de resto a noite era "por conta da casa", e que noites memoráveis. Sem saudosismo, outros tempos, bem vividos, que souberam bem, hoje a realidade é outra, para outros melhor, quem nunca comeu filet mignon, assim está bom.
 
Zé Gouveia
Publicado em Zé Gouveia
sexta, 02 maio 2014 00:05

A lei do mercado dos DJs

Mas afinal, existe alguma "lei do mercado" que influencie a carreira dos DJ's? Claro que sim. 
No meu último artigo de opinião, escrevi um pouco sobre isso mas não aprofundei este assunto que muitos dos novos DJ's ainda não compreenderam. 
Muitos reclamam por "falta de oportunidades". Oportunidades? Será que colocando um DJ num determinado evento/actuação irá alterar em definitivo a sua carreira? A resposta é NÃO. 
 
A "lei do mercado" que eu falo, não é mais do que a aplicação do termo "Oferta VS Procura" num serviço que é fornecido (serviço de entretenimento). 
Quando existem mais DJ's do que locais ou eventos que necessitam desse serviço, quando a concorrência é mais que muita e numa altura em que a profissão foi "banalizada" devido às facilidades em ser DJ que foram trazidas pela tecnologia, ninguém pode dizer que uma actuação (leia-se oportunidades) vai fazer a diferença e colocar alguém num patamar de relevo. 
Hoje foste tu contratado mas amanhã já há outro para ser contratado. 
 
Um factor que influencia as actuações e onde existem críticas por parte dos DJ's da "velha guarda" ou daqueles mais ligados ao "House" é o tradicional termo "mãos no ar". 
Sinceramente, alguém ainda quer ir assistir à actuação de um DJ que não levanta a cabeça, não olha para ninguém e onde ninguém vê o que ele está a fazer? 
Poderão dizer que a música fala por si... ok. Posso concordar, mas então tirem o "homem" dali e metam um set gravado porque estar a olhar para uma cabine onde estar lá alguém ou não estar, é igual, mais vale meter uma jukebox (isto se o importante for a música). 
 
Não quero dizer com isto que os DJ's terão de fazer "palhaçadas" ou estar sempre aos saltos, mas temos que "exigir" que demonstrem que estão a sentir a música e que transmitam (corporalmente) esse sentimento para o público que pagou para os ver (porque se for só para ouvir, ouvem em casa no Soundcloud). 
 

Infelizmente, assim que um "artista" começa a ter alguma projecção e um elevado número de actuações, pensa logo que o motivo é unicamente ele ser melhor que os outros (...)

Uma outra situação que influencia o mercado é o número de actuações dos DJ's - é sem dúvida alguma, se são representados por alguém ou se têm agente de marcações. 
 
Infelizmente, assim que um "artista" começa a ter alguma projecção e um elevado número de actuações, pensa logo que o motivo é unicamente ele ser melhor que os outros ou que a "sua música ou técnica" é superior aos demais "colegas de trabalho". 
 
Regra geral, esquecem-se que só têm esse elevado número de actuações ou são reconhecidos no mercado porque houve alguém que marcou as referidas actuações ou os promoveu convenientemente para que as possam realizar (solicitações/pedidos de actuação).
Como manager e booker que sou, não faço milagres (tal como qualquer outro colega meu). O que "nós" fazemos, não é mais do que fazer aquilo que um DJ não faz e devido a estarmos inseridos no mercado, é normal que o conhecimento que temos dele seja superior ao de alguém que a sua função não é a mesma que a nossa. O acordo principal que se deve obter é o de que um manager/booker não "mete", nem produz música e um DJ/artista não faz management, nem marca datas. 
 
Quanto à questão monetária entre agentes/agências e artistas, tenho uma opinião muito própria (apesar de também eu não a fazer na maioria dos casos): Se um DJ/Produtor fica com os dividendos da sua produção musical (regra geral) então porque é que quando faz uma actuação, tem de ficar com 70% ou 80% do cachet por 1h00/2h00 de trabalho?
 
Será que sabem quantas horas é que o seu representante teve de trabalhar para ele ter essa actuação ou quanto é que investiu (tempo e dinheiro) para que a actuação fosse solicitada/agendada? Será justo?
É verdade que o agente/agência precisa do produto (leia-se artista) para poder "vender", mas também é verdade que o artista sem ser representado, terá de fazer ele o trabalho do agente e certamente ficará muito mais tempo na "prateleira" (como produto que é). 

Raros são os casos em que a mudança de representante deu bom resultado e, tal como tu, ninguém trabalha de borla ou faz investimentos para perder (...)

 
Como referi anteriormente, nenhum agente/agência faz milagres e se não tiver bons artistas, também não conseguirá fazer alguma coisa. Devido a essa situação é que as tais "oportunidades" não são dadas a quem ainda não tem "valor de mercado" porque não existe o retorno devido, relativamente ao trabalho que um agente ou booker tem. 
 
Nos dias que correm, existem poucas soluções para os artistas. Ou assumem um "casamento" com um agente/agência que irá investir em vocês e no caso de quererem mais tarde o "divórcio", vão ter de pagar pelo trabalho e investimento que foi feito, ou então não são agenciados e trabalham nas duas vertentes e assumem o investimento de tempo e dinheiro (não será certamente a mesma coisa nem obter os mesmos resultados). 
 
Se fores artista (DJ, produtor, Mc, musico, etc.) e estiveres ligado a algum agente ou agência (ou se fores convidado para ser agenciado), nunca te esqueças que a opção foi feita entre duas partes. Caso queiras quebrar essa ligação tenta sempre que seja de uma forma amigável e com os motivos bem claros para que possam chegar a um entendimento, nunca esquecendo que "não se deve cuspir no prato onde comeu". Raros são os casos em que a mudança de representante deu bom resultado e, tal como tu, ninguém trabalha de borla ou faz investimentos para perder onde não tenha de ser devidamente compensado. 
 
A decisão de ser agenciado tem de partir de duas partes (tal como num casamento) mas ninguém obriga ninguém a estar "casado" se não estiver contente com a decisão. No entanto, quando alguém quebra um compromisso, não pode ficar com tudo o que foi construído a dois. "Artistas" há muitos e nunca te julgues melhor que os teus colegas, em especial se o trabalho não foi "só teu". 
 
Nenhum agente ou agência consegue nada "sem ti" mas tu podes ser substituível. Quem não pode ser substituído é quem paga (clientes), quem te promove e apoia (parceiros) e quem te dá visibilidade. Ninguém (como eu) faz milagres e qualquer agente/agência sabe que sozinho nada consegue e muito menos faz com que "tu" (DJ) consigas entrar nesta "lei do mercado". 
 
Afinal existe ou não uma "lei do mercado para os DJ's"?
Sim... existe. E acredites ou não, é exactamente a mesma que para outro produto qualquer. 
Existem "Lobys"? Claro que sim. 
Basta ter qualidade? Claro que não. 
Vais lá chegar sozinho e com o teu trabalho? Nem em sonhos. 
 
Ninguém consegue nada sozinho e enquanto não perceberem que ser DJ ou artista é algo que nada mais é do que um serviço/produto e é regido pelas leis de mercado normais, dificilmente conseguirão que alguém "compre" o que querem "vender".

 

Ricardo Silva
DWM Management
Publicado em Ricardo Silva
terça, 16 abril 2019 19:39

DJs vs Produtores Musicais

A indústria da música é um mistério para todos os que estão de fora. As portas para entrar são muitas, mas pouco nítidas. Existem vários caminhos a percorrer, mas estão todos intercalados. 

Na música eletrónica um dos primeiros dilemas é por onde começar. Vou ser DJ ou vou ser Produtor Musical? Queremos ser os dois, mas será que essa é a solução para todos?

Um DJ não tem de ser um Produtor e vice-versa, cada um tem um papel dentro da indústria e o caminho a percorrer está diretamente relacionado com o objectivo de cada um.

O DJ é um entertainer, um intérprete das músicas que toca. Os seus talentos passam pela selecção da música, pela presença de palco e pela capacidade de ler a multidão que tem à sua frente. O seu grande desafio é pôr até a pessoa mais tímida, no fundo da plateia, a dançar. Não é um trabalho fácil. Cada espectáculo exige preparação, capacidade de interpretação e uma energia equivalente àquela recebida pelas dezenas, centenas ou milhares de pessoas que têm à frente.

O produtor não precisa de ser um entertainer. O processo de criação de áudio requer outro tipo de competências. É um processo igualmente criativo, mas mais longo e mais solitário. Precisa de existir uma capacidade de apreciar e absorver vários estilos de música e, mesmo assim, criar algo completamente diferente. 

Embora seja comum no meio associar imediatamente o DJing e a Produção Musical à música eletrónica, ambos os profissionais têm um leque de competências que vão muito além deste universo. Um apaixonado pela música eletrónica tem dúvidas por onde começar, porque as vê como complementos, imagina-se como um DJ de festas e festivais que pretende produzir as próprias músicas. 

No entanto, num contexto de formação, é importante que no início do seu percurso sejam guiados, mostrando-lhes as diversas carreiras que podem percorrer, e que cada caminho é infinitamente mais abrangente do que o preconceito inicial. Como em qualquer área de formação e desenvolvimento, é necessário entender que o futuro é incerto e que uma formação sólida numa dada área pode resultar numa carreira promissora por caminhos não previstos. É nestes caminhos alternativos que as duas áreas se separam e cada um deve analisar qual a opção que reúne competências que o possam levar a trajetos profissionais mais promissores e nos quais se sentirá mais realizado.

Ainda que um DJ possa estar mais associado à música eletrónica, a festas, clubes ou festivais, e que esse seja o grande sonho de um jovem aluno, o futuro pode reservar-lhe a uma carreira de sucesso na rádio, relegando as festas para complemento esporádico ou apenas hobby. Neste caso, as competências de Produção Musical serão pouco mais do que um saber que não ocupa lugar ou mais uma ocupação de tempos livres.
 
Por outro lado, um produtor musical, poderá escolher ao longo do seu percurso dedicar-se à produção de música para outros, sejam eles DJs ou bandas, etc. O conhecimento técnico e criatividade de um produtor musical pode levá-lo até carreiras ainda mais distantes da sua ideia inicial, fazendo carreira na televisão, cinema, rádio ou até no desenvolvimento de músicas para a indústria dos videojogos. Tudo o que precisa de acompanhamento de música precisa das competências de um produtor musical. 
 
Se já andas com o "bichinho" da música, seja eletrónica ou não, começa por pensar em que contexto é que gostarias de te inserir. Alarga o leque de opções e entende que decisão te pode abrir mais portas com que te identifiques. Esse primeiro passo vai-te ajudar a aproveitar ao máximo o tempo de aprendizagem. 

Se o teu objectivo é entreter uma multidão, então vais querer ser DJ.
Se gostavas de fazer a banda sonora de um filme, vais querer ser produtor musical. 
Se gostavas de fazer criar efeitos sonoros para um jogo de playstation, vais querer ser produtor.
Se gostavas de passar música na rádio, então, se calhar, queres mesmo ser DJ.
E os exemplos continuam.

A verdade é que não estás limitado a um ou outro, podes ser os dois, podes não querer perder a oportunidade de tocar o teu próprio som. As opções são infinitas e nós não podemos escolher por ti. Esperemos que isto tenha ajudado, pelo menos a definir prioridades e a alinhar objectivos.
 
AIMEC
Academia Internacional de Música Eletrónica
Publicado em AIMEC
segunda, 03 junho 2013 19:59

O que fazer e o que mudar

Aceitei o desafio da 100% DJ para poder dirigir algumas palavras a todos os leitores/visitantes.
Escolher o tema para esta primeira crónica foi complicado. Não por não haver inspiração, mas porque há tanto para falar e dizer sobre a música, DJs, produtores e noite Portuguesa. 
 
Para quem não me conhece, sou o responsável pela DWM e representamos vários DJs e produtores Nacionais e fazemos o seu management.
Vou partilhar convosco alguns pensamentos e experiência adquirida em 20 anos de mercado. 
 
Em primeiro lugar, já é tempo de se mudar mentalidades entre DJs e produtores. Em Portugal em vez de se pensar em "crescer" profissionalmente, prefere-se deitar abaixo os colegas de profissão. Se olharmos para países como a Holanda ou a Suécia, vemos o quanto estamos errados. Não é a denegrir um colega que o nosso trabalho sai valorizado. Especialmente na produção, é altura de puxarmos uns pelos outros para conquistar o mercado Internacional. Portugal tem muitos e bons produtores que não são valorizados porque existe esta "guerrilha interna" onde ninguém ajuda ninguém e o "falar mal" é muito mais fácil. Todos os produtores sofrem com isto e não há quem saia beneficiado. 

Não é a denegrir um colega que o nosso trabalho sai valorizado. Especialmente na produção, é altura de puxarmos uns pelos outros para conquistar o mercado Internacional.

 
Dentro da produção, há algo que tem de ser interiorizado. Quem produz (independentemente do estilo) tem de perceber para quem a sonoridade é destinada. Vejo muitos produtores a lançarem faixas Afro, Latinas, com sonoridades Brasileiras, vocais em Português e que depois não compreendem porque é que não têm datas Internacionais ou não vendem as suas produções. O motivo é fácil de perceber. São estilos musicais destinados ao mercado interno, PALOP's, Brasil e comunidades Lusas. 
 
Não estou a dizer com isto que não o devem fazer, apenas pretendo que compreendam que é um produto esgotado, limitado geograficamente e pouco "consumido" quando se trata de vendas musicais. Ou conseguem produzir algo "fresh" e com um estilo muito próprio, ou estarão a produzir algo com limitações e muita concorrência. 
 
Ainda dentro da produção, outro erro recorrente é a produção excessiva de sonoridades mais "clubbing" onde a concorrência Internacional é feroz. Para esta situação é essencial editarem numa label Internacional que promova convenientemente a vossa faixa. Editar num "depósito" de faixas ou numa label Nacional, é apenas um capricho. A vossa música por mais qualidade que tenha, não chega como promo aos Top DJs Internacionais (que são quem a pode projectar ao ser tocada), não é divulgada, não há seguidores da label onde editam a faixa para a poderem ouvir (e comprar), etc.
 
 
Quais são as alternativas? 
Como é que se pode projectar a música e abrir portas para as actuações?
 
Chegamos a um ponto que muitos rejeitam e teimam em não aceitar. A Promoção. 
Quer gostem ou não, hoje em dia é essencial terem imensos Likes, Followers, Subscribers, etc. Se não querem investir, falam mal de quem paga anúncios publicitários, não investem em vídeo e imagem e julgam que só a música vai ser suficiente, então nunca vão sair do patamar onde estão. 
Se a vossa música não chega ao público e profissionais, se a quiserem oferecer (free download) mas não têm seguidores ou têm muito poucos, como é que alguém sabe do vosso trabalho se a informação não chegou ao destinatário?
 

Tirem da ideia que vão produzir uma faixa que vai ser um Hit se não tiverem uma máquina à vossa volta para projectar a vossa música.

Podem não saber como o fazer ou a melhor forma de executar. Afinal de contas, são DJs/produtores e não têm obrigação de saber alguma coisa de Marketing. Neste caso, recorram a profissionais. Contactem um management (que vão ter de pagar, não julguem que há alguém que vai trabalhar de borla), falem com um PR (Public Relations) que vos coloque a música nas rádios, "disparem" newsletters, etc., e mentalizem-se que para colher, têm de semear. 
 
Não existe nenhum produtor actualmente que tenha ganho notoriedade sem ter efectuado investimento em Marketing. Tirem da ideia que vão produzir uma faixa que vai ser um hit se não tiverem uma máquina à vossa volta para projectar a vossa música. 
 
 
Então e os DJs?
 
O DJ como o conhecíamos acabou. Sim... acabou. Quem conseguiu atingir patamares elevados, foi porque andou (anda) há muitos anos no mercado. Actualmente o DJ mudou. Com as novas tecnologias tornou-se fácil passar musica (o que para mim, por si só, não faz um DJ). 
 
Situações como tocar durante 5 ou 6 horas seguidas, saber "ler a pista" ou saber baixar a intensidade musical para os clientes irem ao bar consumir e agarrar a pista novamente, são coisas que os actuais DJs não sabem fazer. Foi incutida uma ideia diferente do que é na realidade um DJ, principalmente quando todos pensam em tocar num palco para milhares de pessoas, quando o lugar do DJ é numa cabine a fazer aquilo que sabe (ou sabia) fazer melhor que ninguém. 
 
Um DJ era um "educador musical". Hoje em dia, ninguém quer ser educado porque a Internet dá-lhe tudo para ele escolher por si e é influenciado pelo que ouve na rádio ou na TV. O DJ actual tem de mentalizar-se que tem de optar. Ou toca um estilo muito próprio e fica sujeito à aceitação do mercado e dos clubes que aceitam essa sonoridade, ou "regressa às origens" e é um executante musical que tem de tocar para o que o publico quer ouvir. 
 
Muitos estarão a pensar que vêm DJs a tocar em palcos para milhares de pessoas em Festivais por todo o mundo. Sim, é verdade, mas se virem bem, ou são DJs/produtores que vão para passar a sua música ou ficaram conhecidos por uma determinada faixa ou então são DJs com muitos anos de experiência que ganharam a sua notoriedade há anos atrás. 
 
Actualmente não há um único profissional que seja apenas DJ que nos últimos 6/7 anos tenha atingido a ribalta. Principalmente para os novos DJs que todos os dias aparecem, tirem da ideia que por saberem misturar com um software e passarem as músicas dos SHM, Avicii ou Hardwell, que isso irá levar-vos a algum palco Internacional ou atingir um patamar elevado.
 

Um DJ era um "educador musical". Hoje em dia, ninguém quer ser educado porque a Internet dá-lhe tudo para ele escolher por si e é influenciado pelo que ouve na rádio ou na TV.

O meu conselho para todos os DJs que agora surgiram, é o de procurarem uma residência para trabalhar. Se realmente é como dizem e argumentam (que a música é a vossa vida, o vosso sonho, etc.) vivam então a música como ela tem de ser vivida e principalmente pensem no que realmente querem. Se o que querem é ser um Hardwell, Avicii, Skrillex ou Carl Cox (seja qual for o estilo) sigam o vosso sonho por causa da música e nunca pela fama, dinheiro, prestigio, sexo, copos, etc. porque para atingirem um patamar elevado, não basta ter vontade, qualidade e sorte. Precisam de muito investimento financeiro, "padrinhos", contactos, imenso trabalho e mesmo assim nada é garantido. 
 
Por hoje é tudo e há muito mais para falar, mas o texto já vai longo.
 
Lembrem-se que a oferta é muita e a procura é pouca. Vivam um sonho mas não criem ilusões e valorizem os outros profissionais e principalmente os Portugueses, porque só dando as mãos, podemos sair para o Mundo que é um mercado muito maior que este País no cantinho da Europa.
 
Ricardo Silva
DWM Management
Publicado em Ricardo Silva
Tempo de pandemia e estado de emergência é também tempo de uma reflexão sobre o impacto da nossa área e nas consequentes mudanças no futuro. Neste momento, a incerteza é sem dúvida a maior preocupação numa indústria que foi fustigada pela necessidade de parar a sua actividade, muito antes de todas as outras áreas de sociedade.

A indústria da música, uma área fundamental da cultura, vive tempos difíceis. Músicos, técnicos, agentes, promotores e todos os restantes postos directos e indirectos de trabalho gerados por esta área que em muito contribui para a sociedade, estão com o seu futuro em suspenso.

Em Portugal como na maioria dos países do mundo urge a necessidade de um plano de contingência que passa pela preservação da saúde pública e pelo controlo social e económico. Essas medidas implicam estabelecer prioridades e a música não é assim considerada numa primeira fase. No nosso país por força da sazonalidade da nossa actividade existe muito trabalho considerado precário. A curto prazo terá de ser criado um fundo/linha de apoio excepcional para determinadas áreas da sociedade como a indústria da música e do entretenimento em geral. Se é prioritária a saúde pública e a contenção da pandemia, implica que eventos sejam cancelados ou adiados, tendo em conta que são foco de provável contágio.

Todos aqueles que estão directa ou indirectamente dependentes desses mesmos eventos estão impedidos por tempo indeterminado de exercer a sua actividade, mesmo quando toda a sociedade estiver já de volta ao seu normal funcionamento. É com certeza imprudente acelerar a retoma dos eventos e espaços de diversão, sob pena de assistirmos a uma "segunda vaga" de surto da epidemia que poderá ser mais penalizadora e certamente atrasará a retoma à normalidade.

No entanto é fundamental criar medidas de apoio e um organismo que lidere esse processo de uma forma estruturada.

Este é o momento certo para a indústria da música se unir de uma forma organizada e concertada à imagem de outras áreas. Apenas com uma estratégia será possível salvar uma indústria que ficará exposta.

É sem dúvida um momento único e ímpar na sociedade moderna que vivemos. Como em todas as "guerras" existem consequências, momentos de crise e readaptações para o futuro.

Podemos estar perante uma crise sem precedentes, talvez a mais dura e com maiores consequências, mas é também um momento de mudança de hábitos, de consciência social e de adaptação a uma nova realidade.
Numa fase em que é ainda imprevisível prever o que acontecerá com a economia e sociedade em geral, a música tem e terá sempre um papel fundamental na sociedade e mesmo em tempo de confinamento tem a capacidade de transmitir emoções. Cabe aos músicos e restantes intervenientes continuarem a brindar o público com a emoção e alegria que apenas a música é capaz.

A sociedade e os governantes têm o dever cívico de preservar esse bem tão precioso que contribuiu diariamente para o bem-estar de todos, num momento que é difícil mas que testa a capacidade humana de se superar e reinventar.

Devemos todos contribuir activamente mantendo as regras de afastamento social e medidas de prevenção. Só assim poderemos voltar a fazer festa em breve!

#StaySafe #VaiCorrerTudoBem
 
Fernando Vieira
Publicado em Fernando Vieira
terça, 12 agosto 2014 23:01

Preguiça...

Olá a todos os leitores, colegas cronistas e a toda a equipa da 100% DJ. Espero que, dentro do que tem sido possível, o Verão esteja a correr da melhor maneira a todos.
 
Peço imensa desculpa pelo meu atraso de 12 dias, mas foi-me completamente impossível arranjar um tempo para poder divagar e partilhar convosco os meus pensamentos mais cedo. Decidi então fazê-lo hoje, aproveitando o facto de ter terminado o "mais electrónico festival de sempre em Portugal" no domingo e deixando passar segunda-feira, dia de rescaldo e reacções. 
 
Não sei se foi só nas minhas redes sociais que 80% das pessoas que por lá "habitam" manifestaram uma certa desilusão, mas que foi algo patente, foi. Não pelo cartaz, não pelos espectáculos, mas pela "repetição" dos mesmos. 
 

Há mais de 20 anos que ficou provado que a musica electrónica era o futuro (...)

 
Já de algum tempo para cá que muitos artistas ligados à música de dança, "criticam" ou referem a preguiça das novas "Rock Stars". A insistente playlist de 10/15 músicas que estes DJs tocam show após show, uns atrás dos outros, chega a ser de arrepiar. É incrível, como um artista que tem milhares de pessoas à frente dele, não tem "coragem" de arriscar, de surpreender, de se querer destacar dos demais. Sinceramente, achei por exemplo, o main stage desta edição do Tomorrowland uma verdadeira desilusão. Músicas mais que massacradas, com mais de ano e meio levadas à exaustão na edição do ano passado, tocadas de novo, "over and over again"
 
No Sudoeste, do pouco que vi - mais do mesmo. Acho lamentável, pois, ao contrário das bandas, que precisam de meses de ensaios para actuar em palco, um DJ tem a semana toda para chegar e surpreender. E muito menos desculpas de falta de tempo ou estúdio, pois sabemos que hoje em dia, duas horas de espera num aeroporto, dá para fazer muita coisa, nem que seja para surpreender o público, com um "simples" portátil bem artilhado. A questão é que estão preguiçosos. Pura e simplesmente. Sabemos que a indústria quer que se consuma estes artistas, mas acho, na minha humilde opinião, que têm que rapidamente começar a fazer mais, muito mais.
 
Quando me dizem que um espectáculo do Calvin Harris (que durante duas horas mistura produções suas) é o equivalente a um concerto de uma banda, é, uma comparação ridícula. Se em palco ele tocasse os diversos instrumentos (acompanhado ou não), se tivesse os cantores, se fosse realmente música tocada, isso era outra história, e sim, podíamos chamar de concerto, que inexplicavelmente é o que chamam a duas horas de DJ set nos dias de hoje. 

É importante e urgente que se volte a tratar a indústria como arte e não como máquina de fazer dinheiro fácil (...)

 
Há mais de 20 anos que ficou provado que a musica electrónica era o futuro, por estar, tal como o nome indica, associada à tecnologia, que como sabemos, caminha lado a lado com a evolução, mas estar constantemente a repetir uma fórmula mais que gasta, leva a vários problemas. Um desses problemas é o pouco empenho (já todos percebemos como produzir uma faixa genérica do chamado "universo EDM"), que por sua vez leva à falta de originalidade e acaba por não despertar interesse no público. É um facto provado noutras áreas e neste caso não será diferente. De tal maneira, que, esta preguiça que impera, leva a que nestes ditos "concertos", o DJ use e abuse do microfone, num espectáculo em que deveria ser a música a falar. E até nesse uso e abuso do microfone, o discurso é o mesmo. 
 
É importante e urgente que se volte a tratar a indústria como arte e não como máquina de fazer dinheiro fácil, para, claro, o bem da mesma. Há 20 anos já existiam DJs/Produtores milionários, DJs/Produtores com Grammys e nunca se deixou de respeitar a arte e o público. 
 
Felizmente a música electrónica não tem apenas esta chamada vertente EDM, e noutros estilos existem artistas fabulosos, festivais fantásticos, e sim, uma luz ao fundo do túnel, pois aos poucos, já se sente uma necessidade de mudar. Como se costuma dizer, o Mundo não pára de girar e todos os dias, nasce um génio.
 
Fiquemos com a esperança de que o respeito pela arte volte, e que, estas novas "Rock Stars", queiram realmente ficar para a história, "escrevendo" obras intemporais.
 
Saudações,
 
Publicado em Massivedrum
Os festivais de música atingiram, talvez o seu apogeu nos últimos 4, 5 anos, e agora com uma concorrência global e local, importa conseguir diferenciar o seu produto e saber comunicá-lo. A ordem é de facto conseguir ser pioneiro e ter as melhores sugestões e comodidades para o público-alvo.
 
Quais as tendências para este ano em Portugal?
 
1) Cashless como movimento global a todo o evento
Uma tendência mundial e que começou a dar os primeiros passos nos festivais portugueses em 2015. Ligado ao cartão de crédito, pré-pago ou como forma de determinar dados, os festivais e os seus responsáveis pretendem utilizar esta tecnologia e assim obter o perfil do seu público e assim deter em si maior importância e maior poder negocial com sponsors e parceiros. Piknic Electronik Lisboa, Festival Forte e Lisb/On foram alguns dos eventos que acederam a ter a tecnologia e assim melhorar a experiência do seu público e convidados, procurando evitar filas (acesso ao festival ou compra de bebidas). Nenhum ainda introduziu uma experiência global que possa gerar no portador pagamentos e informações para poder usufruir após o festival e que lhe permita recordar o mesmo, como por exemplo, a marca que lhe endereçou um convite por ter usufruído de uma ativação.
 
2) Modalidades de bilhética
O acesso aos festivais faz-se cada vez mais através de mobile, as pessoas usam mais os telemóveis e acedem a muita informação (não conseguindo muitas vezes selecionar a mesma ou conseguir analisá-la. A nossa leitura é cada vez mais "na diagonal" em virtude do fluxo de informação que recebemos diariamente), tendo um festival maior probabilidade de ser "escolhido" para compra de bilhete, quanto maior a sua visibilidade e permanência nos locais que mais utilizamos. Num estudo da plataforma Eventbrite, é indicado que quanto mais nova a população maior a apetência para adquirir um bilhete por este modo. Hoje já não existe desconfiança numa compra online e obrigar um utilizador a imprimir um bilhete é impensável e até com um efeito dissuasor. Evitar ir a um local físico também é visto como acréscimo de custos e tempo despendido.
Um exemplo bem implementado tem sido o da Vodafone, que nos festivais em que está presente permite que quem compre bilhetes através da sua aplicação tenha um acesso exclusivo a um festival e/ou de forma mais barata - e.g. Rock in Rio, Vodafone Mexefest.
 
3) Media Training
Com o aumento da imprevisibilidade das condições atmosféricas, que afetarão sobretudo os festivais que ocorrem no verão (que são simultaneamente aqueles em que mais se investe e maior visibilidade têm) a que se soma o aumento de situações de violência e insegurança sentida pelo alarme generalizado a situações de terrorismo, será necessário aos grandes eventos (nomeadamente os que têm cobertura ontime via Tv e rádio) uma nova forma de comunicar, mais célere e instantânea perante qualquer incidência (ou previsão da mesma) que tenha obrigado a alterações e/ou cancelamentos de última hora.
Com o fenómeno das redes sociais, qualquer situação negativa é empolada e quanto mais tarde uma reação maior o tempo de permanência de insatisfação nas redes que poderá destruir alguns eventos. Em 2015, existiu o exemplo do SushiFest que por dificuldades de gestão e planeamento no primeiro dia, as críticas deixadas nas redes sociais obrigaram a um trabalho de comunicação redobrado que poderia ter resultado no seu cancelamento.
 
4) Envolvimento dos municípios
A existência de festivais de pequena dimensão tenderá a reduzir-se em sentido contrário ao número de festivais com apoio ou organização municipal (um número crescente, desde 2013). A legislação sobre eventos (nomeadamente os dirigidos para massas e em contexto outdoor) é hoje mais intensa, obrigando a novas taxas aos promotores, que faz com que estes tenham ainda menos verbas disponíveis para poderem executar um festival a nível pessoal ou associativo, ainda para mais perante a maior exigência do público, seja este urbano ou não. Do mesmo modo, os municípios especializaram os seus recursos humanos, procurando através de si mesmos conseguir captar público aos seus eventos, tentando que estes tenham um carácter diferenciador no panorama nacional e que tragam consumo. Bons exemplos são o: FMM Sines, Med Loulé e Festival F.
 
5) Recrutamento
A contratação de colaboradores ou equipas especializadas para os dias de um festival será uma realidade para melhorar e assim fazer face às exigências de novos públicos, nomeadamente os internacionais. Estar mais próximo de faculdades e alunos finalistas das áreas de Turismo, Gestão e Audiovisuais e menos próximo de voluntariado (onde se delegam responsabilidades), fará com que tarefas secundárias mas importantes para a diferenciação de um evento se tornem importantes na fidelização e regresso do público à edição seguinte do evento.
 
Ricardo Bramão
Presidente e Fundador APORFEST, Associação Portuguesa de Festivais de Música.
Publicado em Ricardo Bramão
E aqui estamos nós, quase um ano e meio depois. É realmente uma prova de fogo esta pela qual nos estão a fazer passar. Milhares de live streamings nas redes sociais a custo zero depois, a vida e futuro dos DJs e de todos os que estão ligados ao setor nocturno permanece uma verdadeira incógnita. 

Cada vez mais uma incerteza, esta profissão tende em se manter viva à conta de todo um novo circuito, constituído por restaurantes e esplanadas dos mesmos, a fazer o nosso trabalho por aquilo que nos quiserem dar. Se antes já não era uma forma de sustento fácil, agora acabamos por ficar entregues nas mãos de um sector que obviamente não tem o mesmo grau de profissionalismo que permitiria a este sector artístico a dignidade mínima para poder exercer o seu trabalho, mas que neste momento tem a faca e o queijo na mão. A realidade é que dou por mim a não querer pensar muito naquilo que poderá vir a ser o futuro da minha profissão, pelo simples facto de não saber se existirá um. 

Completamente ignorados por quem governa e toma decisões no nosso país, acaba por ser frustrante olhar para trás e relembrar todo o passado recente, que envolveu sacrifícios e muito trabalho, mas que no presente não serve absolutamente para nada. Cada vez mais parece que o desejo de quem toma as decisões é passar a designar como restauração apenas os restaurantes, os grandes beneficiados com esta pandemia, uma vez que parecem ser, cada vez mais, os grandes meninos queridos do Governo. 

Pintados como os bichos papões de tudo o que de mal acontece neste país, mesmo sendo os únicos que se encontram encerrados desde o início de todo este enredo, sim, porque o insulto que nos fizeram, ao equipararem os bares e discotecas a meros cafés como forma de podermos trabalhar sem condições nenhumas para a nossa área vai ficar para a história, os bares e discotecas continuam a ser objecto de uma tentativa de aniquilação colectiva sem precedentes num estado de direito, sendo que a única coisa que podemos fazer é assistir de uma forma quase tortuosa, à destruição do trabalho de milhares de pessoas, sejam elas artistas, proprietários, profissionais de bar ou seguranças, entre muitos outros. 

A perseguição das forças policiais, com ameaças de autos de contra-ordenação  e discursos agressivos como se estivessem a falar com criminosos, apenas uma mão cheia de minutos depois do horário "permitido" por lei, torna-se não só insultuoso, mas cada vez mais revoltante, fazendo-nos sentir como marginais, mas daqueles que pagam as suas contas, impostos, seguranças sociais e todas as suas obrigações como qualquer português, tirando os da elite, é claro. 

É com muita tristeza que vejo que temos um Governo que não percebe que ao fecharmos o nosso sector em Março de 2020, o fizemos em prol da saúde pública, para bem de todos os portugueses, perdendo com isso milhares e milhares de Euros, perdendo basicamente a nossa independência financeira. Sim, nós fizemos um favor ao país, esta é a verdade! Semana após semana apenas a esperança nos vai mantendo lúcidos o suficiente, para podermos apenas continuar a ter mais esperança, enquanto assistimos a uma Europa toda a devolver a vida aos nossos colegas de sector. Ainda bem para eles, nada de confusões, mas é decepcionante perceberes que estás num país que não sabe reconhecer todos os sacrifícios que foram feitos por ele.

Assistimos a eventos políticos, privados e para a Europa ver onde tudo lhes é permitido, enquanto o nosso sector tem que permanecer quieto e sem se poder queixar muito. Muito sinceramente custa-me um pouco a perceber o porquê desta discriminação e autêntica indiferença, nenhum outro sector passou por semelhante situação na nossa sociedade. À hora que escrevo este texto, já nem me consigo lembrar da última vez que passei música, nem sei se alguma vez voltarei a passar, mas aquilo que sei com toda a certeza é que agora compreendo um pouco melhor tudo o que o meu avô me contava acerca dos tempos da ditadura em Portugal. A pior coisa que, como seres humanos podemos sentir, é realmente sentirmo-nos ostracizados, marginalizados e absolutamente condicionados naquilo que são os nossos direitos básicos como seres humanos. 

É triste olhar para este belo país que é Portugal e vê-lo tão feio, tão descolorido e mau. Enfim, ainda temos a nossa esperança, a esperança que um dia iremos acordar e todo este pesadelo terá desaparecido... ou não!
 
Publicado em Carlos Vargas
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