Diretor Ivo Moreira  \  Periodicidade Mensal
segunda, 10 maio 2021 18:05

Cultura Remota e Monetização

Após todo este período de pandemia, confinamentos e o impacto negativo que sabemos ter afetado o mercado da electrónica em Portugal e no mundo, com os clubs e eventos em "standby" decidi fazer uma retrospectiva e a minha opinião para o futuro, relativamente às opções adoptadas pela maioria do mercado de forma a subsistir e promover os projectos.

Todo o mercado teve de se adaptar ao inesperado, fosse para conseguir liquidez ou para manter o "hype". Fazer uma revisão ao plano de negócio como as redes sociais, press kit, biografia, conteúdo vídeo e audio, programas de rádio e claro, todo o trabalho de estúdio foi das primeiras atitudes que a meu ver deveriam ser tomadas. Com o tempo livre extra, foi uma excelente altura para parar e analisar tudo isto e decidir o que mudar ou acrescentar.

Recentemente abordei a questão "A conexão que falta", onde fiz uma relação entre os eventos “stream” e a ligação com o publico. Com esta questão segue-se outra muito relevante e imprescindível é a sua abordagem, a questão da monetização (o processo de converter algo em dinheiro).

Os live streams foram e são óptimos para promoção de identidades, locais, conteúdo, etc. A meu ver é algo que se vai manter no futuro, ainda mais tendo em conta que já era algo que vinha a crescer. 
Contudo, falha aqui um aspeto muito importante para a subsistência de qualquer indivíduo, a forma de "financial income" para pagar as contas e investimentos.

Na minha opinião, algumas das formas para monetizar ao máximo (possível) passam por:

- Live Streams, é possível monetizar com os streams, seja através das estrelas no Facebook, os subscritores e donations no Twitch e Youtube ou mesmo através de bilhetes adquiridos previamente em plataformas para essas mesmas atuações em exclusivo num website privado.

- Streaming, quando tens música ou conteúdos em plataformas como Spotify, Youtube, Youtube Music, Apple Music, Deezer, etc., esses conteúdos devem ser monetizados. Há um benefício gerado a partir de direitos de autor para a reprodução e esse pagamento é feito ao compositor por cada uma das suas músicas ouvidas na respetiva plataforma de streaming. Mais abaixo um exemplo de algumas cotações de streaming interativo:
 

 

- Merchandising, é uma estratégia muito utilizada, através de vestuário, acessórios, autocolantes, etc. Aqui a finalidade é a monetização em paralelo com a publicidade no "e-comerce", resumidamente é um conjunto de técnicas para dar visibilidade ou promover um produto ou serviço a potenciais clientes de forma assertiva num meio publicitário diferente do habitual.
 
- Patrocínios, é fundamental ter parcerias e apoios com marcas, não só pela liquidez mas também por visibilidade, reconhecimento e redução de custos.
 
- Cursos e Masterclasses, este período tem sido ótimo para todos os que querem adquirir algum conhecimento extra com alguns dos melhores nomes do mercado, o tempo livre gerado pela pandemia levou a que houvesse também mais tempo para o desenvolvimento de Masterclasses e Cursos, sendo estes extremamente personalizados até ao mais pequeno pormenor desejado. Estes aparecem nos mais variados formatos: Djing, Produção, Masterização, Management, Agenciamento entre muitos outros.
 
Estas são algumas ideias que cada um pode adaptar mediante as suas necessidades e capacidades de monetização. São também opções a considerar numa carreira, seja no presente ou no futuro.

Para acabar é importante referir que a principal receita da maioria dos artistas de electrónica é proveniente das atuações ao vivo (Concert Tickets), por isso, abram os clubs e realizem os eventos, todos temos que monetizar!
 
Publicado em Miss Sheila
terça, 16 março 2021 22:12

Oportunidade perdida?

O mundo parou e Portugal não foi excepção, levando a uma paragem forçada da Cultura, da indústria da música electrónica e aos DJs em particular que ficaram privados das suas actuações junto do público, trazendo novamente a debate a ausência total de reconhecimento profissional e regulamentação para o exercício da profissão. 

Se é verdade que estamos a falar de uma arte, também é verdade que a arte tem de ser remunerada e quem a faz precisa de viver como qualquer outro profissional de outra área qualquer, no entanto há imensos DJs a "teimar" em como está tudo bem e com opiniões diferentes quando há quem realmente queira alterar esta situação e que tenha "sentido na pele" a ausência do reconhecimento profissional numa altura em poderiam ter chegado apoios culturais se houvesse fundamentação para essa reivindicação legítima de quem contribui para a economia do País e para a Cultura. 

É verdade que a comunidade DJ Portuguesa está "escaldada" com o aparecimento de associações que não os representa mas não podemos continuar a assistir a que "nomes maiores ou menores" deste sector sejam reconhecidos pelo seu trabalho e pelo que deram ou dão em prol desta indústria e que estejam literalmente a passar fome porque há uma "carolice" e falta de união entre os profissionais portugueses. 

Não há necessidade de "obrigar" ninguém a tirar cursos, pagar licenças (como já tentaram fazer) ou fazer testes como se isso validasse o que é um DJ. 
Falo de haver um reconhecimento profissional, uma categoria profissional específica onde possamos ter dados de quantos somos, quem somos, quanto representamos no PIB Português e onde haja alguém que possa apoiar toda uma classe e elucidar dos Milhões de euros que estão a ser perdidos em direitos de autor (para os produtores), direitos conexos (que desconfio que nenhum DJ esteja a receber) e que haja apoios sociais em alturas que eles são necessários como a altura em que estamos a viver à mais de 1 ano. 

Não há culpados desta situação mas há responsáveis e essa responsabilidade recai em todos os que vivem e trabalham nesta indústria (onde assumo a minha quota parte da responsabilidade) mas espero que esta não seja uma "oportunidade perdida" e que de uma vez por todas possamos juntar todos aqueles que queiram debater e encontrar soluções na procura do bem comum desta área artística que é menosprezada e até discriminada pela própria Cultura. 

Não podemos deixar fugir esta oportunidade porque quando tudo voltar ao normal, todos iremos esquecer o que estamos a passar e só quando houver algo similar iremos lembrar-nos do que poderíamos ter feito e será tarde demais. 

Não faças deste mau momento mais uma oportunidade perdida.
 
Ricardo Silva
Agente Artístico, Empresário e Presidente APENT
Publicado em Ricardo Silva
domingo, 17 março 2019 16:41

Valores

Este tema é algo que até mesmo eu não sei expressar a 100%, mas vou falar-vos um pouco dos valores que devemos considerar válidos e no limite da humildade, e também dos cuidados que nós artistas devemos ter em conta quando nos propomos a um público. 

Todos sabemos que a música eletrónica entrou na "moda" há alguns anos, e, consequentemente o número de DJs/Produtores/Sonhadores/Amantes aumentou ao longo desde esse período. 

No contexto artístico onde estou inserido, já me deparei com inúmeros casos onde o artista elabora enormes riders hospitaleiros, com direito a camarim de luxo, bebidas de marcas caras, toalhas PRETAS, entre outras tantas coisas... Perguntam-me "O que tens contra isso?" Respondo claramente que nada e considero que os artistas se valorizem e peçam aquilo que acham indispensável para o dia da sua performance. Mas será que depois na hora da atuação estão em condições de alguma coisa? Parece que alguns não compreendem que estão a tocar para o público, que estão a ser pagos e que têm de agir como qualquer contratado em qualquer outro serviço. Refiro isso porque há muitos artistas que antes da atuação bebem exageradamente, fazem uma vida de excessos antes de entrar em cena e depois "dá barraca".  O porquê de escrever sobre este tema não é nada contra quem o faz, porque sinceramente não me importo com o nível de atuação de A, B, ou C, escrevo apenas porque prentendo chamar a atenção dos excessos no meio onde estamos. Todos nós nos dizemos ser grandes artistas, falamos bem de nós próprios a toda a hora e considero isso positivo, no entanto é necessário fazer valer o que dizemos. Sinto até que seja um pouco imaturo não nos sabermos comportar dentro do nosso espaço de trabalho, a cabine. 

Para além disso, há ainda aqueles que não sabem ser educados com os colegas de trabalho, não me refiro a colegas/artistas, mas sim Técnicos de Som/Luz/Produção/Organização/Fotógrafos, etc... Sim, porque somos todos parte de uma comunidade! Comunidade esta em que precisamos uns dos outros para trabalhar, onde os artistas aparentam ter algum complexo com a comunicação, porque muitas vezes são mal-educados e chegam a ser desagradáveis para quem com eles está a trabalhar. 

"CAROS AMIGOS DJS, NÓS NÃO SOMOS REIS DE NADA, NÃO SOMOS ESTRELAS E O MUNDO NÃO GIRA À NOSSA VOLTA".

Entendam que não precisamos ser arrogantes para quem está a trabalhar. Temos espaço para ser artistas, músicos e na nossa cabeça até temos espaço para ser estrelas, mas acima de tudo devemos ser pessoas, e boas pessoas, porque só assim deixamos a nossa marca. Este é realmente um tema que me incomoda, não por viver isso na pele, mas porque já vi acontecer inúmeras vezes.

Nunca se esqueçam desta lista:
Sem Técnico de Som: Não ouvimos 
Sem Técnico de Luz: Não vimos
Sem Produção: Não comemos 
Sem Organização: Não recebemos 
Sem Fotógrafos: Não recordamos 
Sem Público: Não nada.
 
Zinko
Publicado em Zinko
domingo, 09 agosto 2020 14:43

A saúde mental do entretenimento

O verão em Portugal é sinónimo de festa, diversão e convívio. Não só festivais de verão com cartazes internacionais, mas sobretudo centenas de festas municipais e religiosas, bailes, convívios e concertos ao ar livre espalhados em todo Portugal e Ilhas. 

Por esta altura do ano é normal para quem trabalha no sector de entretenimento toda a azáfama, correria, poucas horas de sono. A criação de sorrisos e felicidade a milhares de pessoas é uma rotina diária. E tudo isto graças ao trabalho dedicado de milhares de técnicos, artistas, agências, seguranças, limpeza, comerciantes locais, carrocéis, entre outros.

O que está a acontecer no verão 2020 é uma nova realidade que nunca foi experienciada. 

Até que ponto estará em causa a saúde mental de todos os profissionais deste sector? E já agora a de todos os utilizadores finais, o público, que neste caso é apenas e só toda a população portuguesa? 

Ter contas por pagar e a família para sustentar é uma realidade que assusta qualquer indivíduo na nossa sociedade.

O sentimento de impotência é gigante. Ainda que se pense desesperadamente em trabalhar temporariamente noutro sector económico, permanece o "pequeno" problema de toda a economia portuguesa estar em baixa, numa altura em que a maioria das empresas entram em período de férias e o turismo externo cai a pique devido à pandemia. 

Para a maioria das pessoas não se vê grande solução, portanto. Isto obviamente potencia o desespero interno mental de qualquer indivíduo. Estão aqui em causa graves problemas de saúde para muitos milhares de pessoas, nomeadamente depressões, que poderão originar um ciclo destrutivo individual e familiar nos próximos meses. 

Para piorar tudo, há a incerteza total sobre o futuro do próprio sector. 

Quando nem sequer há uma luz ao fundo do túnel... fica tudo mais difícil de consciencializar, enfrentar e lutar.  Afinal de contas, se não sofremos de COVID podemos ainda assim sofrer outras consequências muito graves para a nossa saúde a longo prazo.

E o que irá acontecer à população em geral que se vê privada, ou muito limitada, de animação, convívio, reencontros...? Não há mesmo nenhuma forma de minimizar estes danos sociais? Já se percebeu que Portugal é dos poucos países Europeus onde nem sequer será autorizado abrir estabelecimentos de entretenimento num formato de horário normal noturno, absolutamente necessário para dar um boost de diversão e satisfação a todos.

Num país desenvolvido, toda esta temática do âmbito psicoemocional deveria ser abordada pelos governantes, comunicação social, etc. Contudo, mais uma vez Portugal ignora por completo a componente psicológica de uma grave crise num sector de atividade, e neste caso, do possível início de uma crise financeira em todo o país. Foi assim em 2010 e é agora com o COVID. 

Sobretudo no sector de entretenimento e cultura devemos por isso estar mais atentos e solidários uns com os outros, a todos os níveis. Nunca houve uma situação tão extremista de desaparecimento de atividade como a dos dias de hoje.

É importante e benéfico haver sempre concorrência num sector de atividade. No entanto um fator muito mais valioso se levanta: a saúde mental de todos nós, que irá fazer a diferença para que o sector se possa levantar mais rapidamente, assim que haja condições sanitárias e governamentais para tal.

A união, o apoio e o positivismo são absolutamente necessários para enfrentar os desafios e estigma social que ainda todos nós temos pela frente, enquanto durar a sociedade COVID19. 

#NãoVaiFicarTudoBem, mas podemos contribuir para que fique tudo melhor!
 
João Casaleiro
CEO Agência DO HITS
Publicado em João Casaleiro
segunda, 07 novembro 2016 21:56

Espírito corporativo, existe?

 
O lançamento da APORFEST - Associação Portuguesa Festivais de Música (em setembro de 2015), veio no seguimento do Talkfest - International Music Festivals Forum (com uma primeira edição em 2012), um evento que ao longo de 2-3 dias por ano serve para aglutinar a indústria, torná-la frente-a-frente, fora dos escritórios ou dos nichos e assim torná-la mais humana e corporativa e assim seguidora de todas as outras áreas - marketing, direito, gestão de recursos humanos, psicologia. Daí até à organização de uma associação que representasse todos os setores (e.g. promotores, artistas, investigadores, media, prestadores de serviços, alunos) foi um passo porque ao longo do restante ano eram-nos colocadas dúvidas relacionadas com informação, legislação, fiscalidade, regulamentação ou financiamento entre tantas outras, o que nos obrigou a estar 365 disponíveis.
 
Os fundadores de ambas debateram-se ainda enquanto externos a esta indústria, porque não existe nesta área, a dos festivais de música a nível nacional (que todos falam, todos acham trendy, todos querem testar e dar-se a conhecer, mas que tem um défice de corporativismo) um seguimento normal de qualquer outra área - a partilha, o networking, o debate e o real interesse na evolução, que se consegue muito mais fácil de modo coletivo que individual ou em pequenos grupos (que não são mais que um disfarce)?
 
Orgulha-nos ter sido desbloqueadores deste ponto e colocar as entidades a falar de uma forma mais aberta, mesmo que concorrentes entre si, orgulha-nos ter dado a conhecer talento jovem em redes de contacto que são por si só pequenas e fechadas, assim como tantos outros fatores. Ao contrário de outros países e culturas, estamos a anos luz deste corporativismo sincero (sem invejas e beneficie com a concorrência e não com a falta dela) e que funcione em ligações privadas e públicas numa potenciação da internacionalização por exemplo, bastando ver o que outro evento organizado por nós, os Iberian Festival Awards, que apesar de estar na rede europeia dos Festival Awards, demonstra mais dificuldade em cativar e fomentar a cooperação ibérica entre portas que fora delas. Vemos com positivismo a chegada de novas associações que vão conseguir defender interesses e chegar mais rápido a objetivos que estivessem fora da associação de forma ad-hoc e espartilhada.
 

Existe ainda uma clara vontade de alguns players em quererem deter tudo no seu controlo e a não querer beneficiar daquilo que não comandam (...)

 
Da mesma forma, esta evolução tem sido alavancada por novos, pequenos e médios promotores, continuando a ser ainda difícil por todos num "mesmo barco" em que todos são iguais e todos valem o mesmo. Preocupa-nos o facto de não se ter apoiado eventos como os Portugal Festival Awards, organizado por uma dupla de jovens (que não a nossa que muitos confundiram), a querer premiar e valorizar uma área, sem conseguir rentabilizar a sua ideia, enquanto do outro lado se discutia a seriedade, a isenção dos mesmos, quando estes prémios são depois utilizados (e ainda bem) como forma de comunicação e credibilização de municípios e festivais. Enquanto lá fora, premiar uma área é apenas um "serviço mínimo" que deve existir em qualquer área.
 
Existe ainda uma clara vontade de alguns players em quererem deter tudo no seu controlo e a não querer beneficiar daquilo que não comandam, não se querendo imiscuir com os outros. Há muito caminho a percorrer, venham novas associações (de classes profissionais, de estilos musicais...), venham projetos como o WhyPortugal, venham debates, venha uma regulação e apoio claro a esta área. Mas venha de uma forma justa e realmente isenta como aquela que até aqui temos tentado fazer, sem se fazer contas a quem beneficia e aos lobbies que se quer deter ou não!
 
Ricardo Bramão
Presidente e Fundador APORFEST, Associação Portuguesa de Festivais de Música.
Publicado em Ricardo Bramão
sexta, 01 fevereiro 2013 18:47

O bom djing e o ponto de equilíbrio

 
Corria o verão de 1992. Eu punha música há muito pouco tempo: era um dos disc jockeys residentes de uma discoteca em São Pedro de Moel, uma pequena localidade à beira-mar, a cerca de 20 quilómetros de Leiria.

A conquista daquela cabina, uns meses antes, resultado da minha obstinação, tinha sido um sonho tornado realidade. Depois de algumas tentativas frustradas, em que me dirigi ao dono da discoteca para lhe pedir emprego e ele recusou, contrataram-me finalmente no fim de 1991. Tinha 16 anos.

O Relações Públicas perguntou-me quanto queria ganhar por noite. Respondi-lhe: "seis contos". Ele sorriu e disse-me que só podia pagar quatro. Aceitei sem pestanejar. Naquela altura, até teria pago para trabalhar, tal era a minha excitação.

Quando a discoteca me contratou, dividi, durante os primeiros tempos, a cabina com um disc jockey mais experiente, que teria pelo menos mais 10 anos do que eu. Era um DJ mais ou menos reputado na área do "Som da Frente" - nome que dávamos à música que o programa de rádio homónimo popularizou - e, por isso, sentia a necessidade de vincar a sua posição de destaque.
 
O que mais me fazia impressão era ele ser duro de ouvido. Nunca conheci um DJ com tão pouca sensibilidade rítmica. Utilizava a técnica de usar as quebras para introduzir a música seguinte - que usava com competência -, e, noite após noite, os temas eram invariavelmente os mesmos e tocados sempre pela mesma ordem. Era penoso, mas o público parecia gostar. O princípio era simples: dava às pessoas o que elas queriam ouvir.

Nunca aprendeu a acertar batidas e não se coibia de mostrar a sua enorme frustração, dizendo-me coisas tão absurdas como "acertar batidas está fora de moda", ou "o pitch serve para as músicas más acabarem depressa e as boas demorarem mais tempo". Eu ficava incrédulo com tanta alarvidade, e escusado será dizer que mantivemos uma relação conflituosa.

(...) a qualidade de um DJ, para mim, media-se no justo equilíbrio entre a preocupação com o lado funcional da pista de dança e o vanguardismo  (...)

 
Apesar de tudo, aqueles tempos foram uma boa escola. Foi aí que comecei a compreender os fluxos da pista de dança, e a perceber que pôr o público a dançar, por muito que pudesse custar, era a primeira prioridade de um disc jockey. A técnica, que até aí sempre tinha sobrevalorizado, só era útil se estivesse ao serviço desse propósito.

Foi nessa época, embora talvez ainda inconscientemente, que comecei a ganhar a noção de que um bom DJ tinha de ter duas características básicas: por um lado, preocupar-se com a pista de dança e dar ao público o que ele quer ouvir, mas, por outro, ter arte e engenho para conduzi-lo para paragens musicais ignoradas à partida.

Ou seja, a qualidade de um DJ, para mim, media-se no justo equilíbrio entre a preocupação com o lado funcional da pista de dança e o vanguardismo, um certo sentido de missão na divulgação de música que o público desconhecia ou ainda não estava disposto a ouvir.
 
Passados estes anos, a minha opinião, no essencial, não se alterou. Continuo a acreditar que um DJ que apenas se limita a debitar música que o público quer ouvir pode facilmente ser substituído por uma máquina. Por outro lado, um DJ que toca numa discoteca como se estivesse em sua casa, tentando impingir a música que gosta aos outros, não deve merecer o respeito do público, que em última análise é quem paga o seu cachet.

Este equilíbrio nem sempre é fácil de atingir. E reconheço que muitas vezes pendi para os dois lados, por facilitismo ou arrogância. Mas é a incessante procura desse equilíbrio que me continua a estimular enquanto DJ e me dá ânimo para tocar. Olhando para trás, para além do meu amor pela música, o que sempre me deu gozo nesta profissão foi (e continua a ser) a procura desse ponto de equilíbrio.

Umas vezes encontro-o - com sorte, inspiração ou competência -, outras vezes encontra-me - o público é extraordinário -, e muitas vezes não o atinjo sequer - por inaptidão pessoal ou porque o público não ajuda. Mas tenho sempre a noite seguinte para tentar de novo.
 
Alex Santos
Publicado em Alex Santos
quarta, 22 fevereiro 2017 22:02

Preparação e pesquisa de músicas

 

Assunto muito discutido. A pesquisa de músicas torna-se a cada dia, o ponto crucial para o DJ profissional. Assim sendo, uma pesquisa mais apurada acaba aumentando a qualidade do desempenho do DJ e, ainda por cima, pode fazer a diferença entre o sucesso ou não de um gig.
 
Outra virtude da pesquisa é a possibilidade de clarear os caminhos do set e distanciá-lo o máximo possível daquele lugar comum, onde se encontram as faixas sob as categorias patrocinadas ou as famosas “Top 10”, “Top 100”, etc. 
 
Categorias essas que, em grande parte, estão em evidência, pois (como o próprio nome diz) foram financiadas de alguma maneira. Ou seja, para se destacar, o profissional deve se acostumar com a corrida incessante em busca de novidades que, pratiquem a coexistência entre o gênero que mais o retrata e a surpresa de tocar uma faixa pouco conhecida ou até mesmo exclusiva.
 
A introdução desta crónica sugere a não banalização da profissão de DJ, já que grande parte das pessoas (clientes) que frequentam as festas e clubes não tem nenhum tipo de conhecimentos.
 
Nada mais injusto, uma vez que a função principal do DJ é a de levar a boa música, a cultura e as sensações transmitidas pelo seu set.
 
Seguindo para a parte que realmente interessa... A pesquisa.
 
É de conhecimento geral que grande parte da matéria-prima do DJ, a música, encontra-se na internet. Seja lançamento, seja uma track de um ano atrás ou aquele clássico que marcou a década de 80, a probabilidade de se encontrar tal conteúdo em formato digital supera os 95%. 
 

(...) a probabilidade de se encontrar tal conteúdo em formato digital supera os 95%.

 
Sendo assim, pode-se levantar a grande questão: Como ser diferenciado em um nicho de mercado competitivo em que, mais da metade dos interessados são incluídos digitalmente e possuem os mesmos recursos?
 
Na minha opinião a resposta para tal pergunta é simples e direta: DEDICAÇÃO
 
Quanto maior a dedicação, maior será a chance de aumentar o grau de temas novos nas suas music lists.
 
Algumas Dicas
O levantamento dos artistas que mais agradam o ouvido do DJ é um bom primeiro passo. 
 
Frequentar a página do produtor, estar sempre atento ao seu trabalho e segui-lo em redes sociais é uma vertente interessante, pois faz com que os lançamentos dessas pessoas cheguem mais rapidamente até o pesquisador mais assíduo. O objetivo aqui é simplesmente vigiar de perto os lançamentos, produções e remixes dos que o DJ considerar como melhores produtores.
 
Seguindo a questão acima, duas hipoteses interessantes. A primeira será a pesquisa sobre um registo musical. Esse registo reúne músicas que tenham algo em comum, então se um lançamento do produtor de preferência daquele DJ o agradou naquele momento, há uma ampla facilidade de ele apreciar os lançamentos adicionais e demais produtores daquele mesmo registo musical, ampliando, assim, a rede de produtores que o artista seguia até então.
 

Procurar discos nas lojas espalhadas pelo país (já muito poucas) é uma alternativa palpável e confiável.

 
A segunda hipótese é o aumento da notoriedade de um recurso interessante que alguns sites oferecem, conhecido como “quem comprou esta faixa, também comprou…”, isto significa que podemos comprar e encontrar a mesma música e mais as apontadas, isto é, a avaliação dessas outras faixas tornou-se iminente, uma vez que dois artistas de, aparentemente, mesmo gosto musical, se encontraram.
 
Pode não ser de conhecimento geral, mas existem lançamentos de faixas exclusivas em vinil, o que pode tornar um set extremamente distintivo com relação aos demais, uma vez que nem todos os DJs são entusiastas dos 12’’. Contudo, o profissional pode – e deve – adquirir o vinil e utilizar-se das técnicas digitais atuais para converter a faixa e conseguir exibi-la ao público de maneira digital, mesmo entendendo-se que essa técnica pode decrescer a qualidade com que a música foi gravada.
 
Mantendo a abordagem tecnologica, porém distanciando um pouco da originalidade, atualmente existem aplicativos que têm por objetivo identificar músicas. Daí, se o DJ escutar um trecho de uma track, basta habilitar esses softwares para obter um retorno do produtor e nome da mesma. Muito se contesta a respeito de aplicações como essas, porém poderá ser mais um meio de pesquisa. Exemplo: Shazam
 
Por fim, conclui-se que o DJ deve estar a par de toda e qualquer mídia social existente. Sites como o Facebook, MixCloud, SoundCloud, entre outros, devem ser visitados constantemente, pois neles podem aparecer sons novos, ímpares e que encaixem no repertório do artista.
 
Abandonando a era digital, ainda existem opções para os DJs.
 
Procurar discos nas lojas espalhadas pelo país (já muito poucas) é uma alternativa palpável e confiável também. A obtenção de raridades nestes locais é completamente exequível e, vale frisar novamente.
 
O trabalho exigirá dedicação!
 
Publicado em Divenitto
terça, 06 dezembro 2016 22:35

30 Anos

Num dia de Setembro de 1986, depois de ter participado em alguns eventos na escola que frequentava (a Escola Secundária de Santo André, no Barreiro, distrito de Setúbal) e algumas festas particulares, fui até à Discoteca “Os Franceses” (chamava-se assim porque ficava por baixo de uma Sociedade Recreativa chamada “Os Franceses”) para “prestar provas” e assim poder começar a trabalhar ali como DJ residente.
 
Foi uma tarde de muitos nervos, com o gerente, alguns empregados e amigos a ouvir o meu “set” feito ali, em directo, para depois decidirem se eu iria ou não ficar como segundo DJ da Discoteca. Aquele que fazia as folgas do DJ principal e passava os “slows”, a música mais calma que se passava numa determinada altura da noite (ou tarde) e onde as pessoas dançavam agarradas. Dois “pratos” com “pitch” (com sistema de correia, o que os tornava bastante “variáveis”) uma mesa de mistura de dois canais (sem equalizador por canal) e alguns discos de vinil escolhidos pelo gerente foram os instrumentos usados para esta avaliação.
 
Apesar dos nervos, de não conhecer os discos e de não ter monitores na cabine (“luxo” que só apareceria muitos anos mais tarde...) a “audição” correu bem e fui aceite como DJ residente. Foi uma sensação inesquecível para mim! Todas as horas passadas a ouvir (e a gravar em cassetes) os programas “Discoteca”, “Som Da Frente”, “Todos No Top” na RDP-Rádio Comercial (entre outros) tinham valido a pena... O meu primeiro ordenado: 25 contos por mês para trabalhar quartas, quintas, sextas e sábados à noite e domingos à tarde! Hoje seriam 125 euros...
 
Em 2016 ano passaram 30 anos desde este momento. Desde essa altura muita coisa mudou no papel que o DJ desempenha num Club. Em 1986 um DJ era simplesmente mais um empregado da Discoteca, cuja função era passar a música que funcionasse melhor para o público do momento, fosse Pop, Rock, Reggae, ou outro qualquer estilo desde que não se “esvaziasse a pista”. Os discos eram comprados pelas discotecas e não pelos DJ’s, por isso os gerentes (que muitas vezes acompanhavam os DJ’s nas compras) também tinham uma  desde que fosse dançsmente acompanhavam os DJs , Rock, Reggae, ou outro qualquer estilo, desde que fosse dançuma palavra a dizer sobre o estilo de música. Nos dias de hoje é difícil imaginar uma situação destas, certo? Mas era assim que funcionavam a maior parte dos Clubs...
 

O DJ é neste momento um dos ícones, uma das principais referências dentro da música, nas suas várias vertentes e estilos.

 
Hoje em dia o DJ é o artista principal da discoteca/evento. É por ele, pela música que ele “toca” (a aplicação deste termo a um DJ dará para outra crónica...) que as pessoas ali se deslocam. Ou pelo menos é assim na maioria dos casos. O papel que um DJ tem nos dias de hoje não tem nada a ver com o que tinha nos anos 80/90, o seu protagonismo é (quase) total, tendo-se mesmo tornado uma estrela Pop nos últimos anos. Quando nomes como David Guetta, Carl Cox, Richie Hawtin, (entre muitos outros) enchem estádios/pavilhões com milhares de pessoas e têm os seus próprios dias nos maiores festivais de música em todo o planeta, facturando milhões, é toda uma geração que os segue. Os DJ’s são, sem dúvida, dos artistas mais importantes do século XXI. Os cantores do momento querem gravar com os nomes mais importantes, as bandas querem remixes suas, o seu nome aparecer num tema é (praticamente) garantia de sucesso. O DJ é neste momento um dos ícones, uma das principais referências dentro da música, nas suas várias vertentes e estilos. Um exemplo a seguir por muitos.
 
É por isso normal que muita gente queira seguir este caminho. Todo o mediatismo gerado à volta da figura do DJ leva a que muitas pessoas queiram, naturalmente, fazer o mesmo percurso, tentar chegar “lá acima”. As novas tecnologias e o seu fácil acesso (e o baixo preço do equipamento, quando comparado com os preços dos anos 80/90 e 2000) tornaram muito mais fácil o caminho para os novos talentos. É bastante mais fácil para uma pessoa com talento e determinação, mesmo com poucos recursos económicos, conseguir produzir um tema com muita qualidade que tenha sucesso nas rádios e que projecte o seu nome como Produtor, o que leva (na maior parte dos casos) a um aumento das suas actuações como DJ.
 
O “ser DJ” tornou-se por isso um objectivo de muitos, o que em alguns casos provocou reacções menos positivas de pessoas que criticam a “banalização” do papel do Disc Jockey. É verdade que houve (e continuará a haver enquanto o DJ tiver o protagonismo que tem hoje) muitas pessoas que “apanharam o autocarro” (os ingleses têm uma expressão para isso - “jump on the bandwagon”) do DJ’ying e que se aproveitam (ou aproveitaram) desse fenómeno e “de repente” também são DJ’s. É uma situação normal e que não vai acabar tão cedo. Mas também é verdade que esta “massificação” nos trouxe alguns artistas de muito talento que de outra forma nunca poderiam ter chegado ao grande público.
 
Para mim 2016 foi um ano muito especial. Foi o ano em que cumpri 30 anos totalmente dedicados à música, deixando para trás uma (possível) carreira como arquitecto. Uma data que sinceramente nunca pensei em atingir, até porque quando comecei a minha carreira, os DJ’s com mais de 30 anos de idade (salvo raras excepções) já eram considerados “cotas” ou “desactualizados”. Foi também um ano de balanço, de pensar em tudo o que aconteceu ao longo destes 30 anos, em toda a música que me “passou pelas mãos”, em todas as horas, noites, tardes, dias passados em estúdio ou a actuar em algum das centenas de eventos onde participei. Na mudança radical do papel do DJ ao longo destes 30 anos...
 

Sinto-me um privilegiado por ter acompanhado todo este processo e por ainda hoje, creio eu, fazer parte do lote de artistas que impulsionou e impulsiona a “Dance Scene” em Portugal.

 
Tive a sorte de estar nos princípios do “boom” da música de dança em Portugal, ao lado das primeiras editoras a arriscar editar música electrónica “Made in Portugal” (das quais a Magna Recordings fez parte), nos primeiros eventos com DJ’s convidados vindos do estrangeiro a actuar em solo nacional e mais tarde nos primeiros mega-eventos de música de dança em Portugal. Sinto-me um privilegiado por ter acompanhado todo este processo e por ainda hoje, creio eu, fazer parte do lote de artistas que impulsionou e impulsiona a “Dance Scene” em Portugal.
 
2016 foi sem dúvida um dos melhores anos da minha carreira, recebi alguns prémios (entre os quais o da 100% DJ), participei em muitos eventos que me marcaram bastante, tal como os “Melhores do Ano da Radio Nova Era” (Porto) em Abril, onde recebi o Prémio Carreira (totalmente de surpresa...); no mega evento “Rock In Rio” em Maio em Lisboa, onde actuei ao lado de nomes como Carl Cox, DJ Vibe ou Octave One, todos referência para mim enquanto DJ’s/Produtores. Uma noite inesquecível!
 
Foi por isso com muito prazer que no final de Outubro estive no Salão de Plenos da Câmara Municipal do Barreiro para receber uma homenagem aos meus 30 anos de carreira, das mãos do próprio Presidente da Câmara. Foi uma total surpresa para mim que a Câmara Municipal da minha cidade se tivesse dado ao trabalho de organizar essa cerimónia onde estiveram alguns dos meus amigos mais próximos, a minha família mas também alguns meus ex-colegas da Escola Secundaria, pessoas que eu já não via há décadas! Nunca eu iria imaginar que, 30 anos depois de passar tantas vezes a pé em frente à Camara Municipal a caminho dos “Franceses” para ir trabalhar, iria estar ali no Salão de Plenos a receber uma homenagem pelos meus 30 anos de carreira das mãos do próprio Presidente da Câmara!!
 
A minha mensagem é por isso muito simples: acreditem nos vossos sonhos, por mais difíceis que possam parecer, dediquem-se o mais que puderem à música se esta for mesmo a vossa paixão. Não vão por “modas”, tentem “tocar” aquilo que realmente gostam, se puderem entrem também pelo caminho da produção, criem os vossos próprios temas, porque, se o vosso trabalho tiver mesmo qualidade, mais cedo ou mais tarde a vossa oportunidade vai (mesmo) aparecer... Eu (ainda) acredito nisso!
 
Carlos Manaça
 
(Carlos Manaça escreve de acordo com a antiga ortografia)
Publicado em Carlos Manaça
segunda, 02 abril 2012 21:33

Conversas à beira bar

 
DJs...
Nos dias que correm, surgem cada vez mais DJs (wannabes) ou projetos envolvendo os mesmos. A polémica estalou! As casas agradecem os cachets mais baixos e a capacidade de movimentar gente, característica típica de RPs. Mas no meio de tanta polémica acabamos por atirar pedras, quando de facto mesmo nós temos telhados de vidro...

Um dia ao olhar à volta cheguei a uma conclusão: no nosso dia-a-dia protagonizamos algo que segue a mesma linha lógica sobre a qual muitos de nós se queixam.

As casas procuram DJs mais baratos que arrastem gente para os ouvir, fazendo um paralelo com outra realidade. Neste mundo existe tanta gente que tem um amigo habilidoso que consegue arranjar o nosso computador, TV ou máquina de lavar roupa, aí poupamos uns trocos por não precisarmos de recorrer a pessoas ou empresas especializadas que nos sairiam mais caras.
Então essas mãos e mentes habilidosas, embora não sejam formadas ou treinadas para a área especifica, acabam por “desenrascar” de uma forma que nos serve perfeitamente e nos favorece economicamente, retirando trabalho a quem estudou, treinou ou se especializou em determinada arte, ciência, etc.
 
A luta dos DJs já remonta a tempos míticos em que se criticava quem não tinha um mix perfeito ou não tocava uma determinada linha musical da eleição da maioria dos artistas mais conceituados. Agora para além da técnica ser quase nula por parte destes, ainda existe a problemática da qualidade musical que é em grande parte a única possível... numa conversão medíocre de um vídeo online para formato áudio (o que é ainda mais reprovável)!
 
Mas no meio de tantas polémicas esquecemo-nos que ser DJ não é apenas o “mix perfeito”, é sim a espiritualidade e a forma de estar com a música e o público numa sintonia repleta de boas vibrações e, de facto, o que falta em profissionalismo ou habilidade a todos os "wannabes" é compensado com essa boa vibe que eles levam para as cabines e pistas!

Prego atrás de prego (usando a gíria DJística) eles constroem uma noite bem regada de sorrisos, dança e amizade ainda que a técnica e qualidade sonora estejam ausentes... se bem que a base da história do DJing era apenas passar música sem ter necessariamente que existir o "mix". Se formos ao "fusilis" da questão, este novos iniciados também podem ser considerados DJs porque passam música (mesmo que pareça uma noite de feira popular ou um bom bailarico da terrinha)!

Já cansa tanta queixa. Vivemos num mundo livre e cada um tem o direito de experimentar, viver, vibrar e a música e o público potenciam toda uma panóplia de emoções. Chega de tanto drama, "diz que disse" e mau estar entre os demais.
Todos sabemos que no final prevalece sempre a qualidade e a alma que poucos podem oferecer. Em todo esse mundo se procura o barato de biscates mas no final quando queremos qualidade garantida, acabamos por recorrer a quem “sabe o que faz” e está certificado para isso, porque o mais barato por vezes sai caro...
Fica esta no ar para os mais atentos: “Deixa-os andar” como diria o mais típico dos portugueses!
 
Francisco Praia
www.facebook.com/funkyou2djs
Publicado em Francisco Praia
terça, 16 abril 2019 19:39

DJs vs Produtores Musicais

A indústria da música é um mistério para todos os que estão de fora. As portas para entrar são muitas, mas pouco nítidas. Existem vários caminhos a percorrer, mas estão todos intercalados. 

Na música eletrónica um dos primeiros dilemas é por onde começar. Vou ser DJ ou vou ser Produtor Musical? Queremos ser os dois, mas será que essa é a solução para todos?

Um DJ não tem de ser um Produtor e vice-versa, cada um tem um papel dentro da indústria e o caminho a percorrer está diretamente relacionado com o objectivo de cada um.

O DJ é um entertainer, um intérprete das músicas que toca. Os seus talentos passam pela selecção da música, pela presença de palco e pela capacidade de ler a multidão que tem à sua frente. O seu grande desafio é pôr até a pessoa mais tímida, no fundo da plateia, a dançar. Não é um trabalho fácil. Cada espectáculo exige preparação, capacidade de interpretação e uma energia equivalente àquela recebida pelas dezenas, centenas ou milhares de pessoas que têm à frente.

O produtor não precisa de ser um entertainer. O processo de criação de áudio requer outro tipo de competências. É um processo igualmente criativo, mas mais longo e mais solitário. Precisa de existir uma capacidade de apreciar e absorver vários estilos de música e, mesmo assim, criar algo completamente diferente. 

Embora seja comum no meio associar imediatamente o DJing e a Produção Musical à música eletrónica, ambos os profissionais têm um leque de competências que vão muito além deste universo. Um apaixonado pela música eletrónica tem dúvidas por onde começar, porque as vê como complementos, imagina-se como um DJ de festas e festivais que pretende produzir as próprias músicas. 

No entanto, num contexto de formação, é importante que no início do seu percurso sejam guiados, mostrando-lhes as diversas carreiras que podem percorrer, e que cada caminho é infinitamente mais abrangente do que o preconceito inicial. Como em qualquer área de formação e desenvolvimento, é necessário entender que o futuro é incerto e que uma formação sólida numa dada área pode resultar numa carreira promissora por caminhos não previstos. É nestes caminhos alternativos que as duas áreas se separam e cada um deve analisar qual a opção que reúne competências que o possam levar a trajetos profissionais mais promissores e nos quais se sentirá mais realizado.

Ainda que um DJ possa estar mais associado à música eletrónica, a festas, clubes ou festivais, e que esse seja o grande sonho de um jovem aluno, o futuro pode reservar-lhe a uma carreira de sucesso na rádio, relegando as festas para complemento esporádico ou apenas hobby. Neste caso, as competências de Produção Musical serão pouco mais do que um saber que não ocupa lugar ou mais uma ocupação de tempos livres.
 
Por outro lado, um produtor musical, poderá escolher ao longo do seu percurso dedicar-se à produção de música para outros, sejam eles DJs ou bandas, etc. O conhecimento técnico e criatividade de um produtor musical pode levá-lo até carreiras ainda mais distantes da sua ideia inicial, fazendo carreira na televisão, cinema, rádio ou até no desenvolvimento de músicas para a indústria dos videojogos. Tudo o que precisa de acompanhamento de música precisa das competências de um produtor musical. 
 
Se já andas com o "bichinho" da música, seja eletrónica ou não, começa por pensar em que contexto é que gostarias de te inserir. Alarga o leque de opções e entende que decisão te pode abrir mais portas com que te identifiques. Esse primeiro passo vai-te ajudar a aproveitar ao máximo o tempo de aprendizagem. 

Se o teu objectivo é entreter uma multidão, então vais querer ser DJ.
Se gostavas de fazer a banda sonora de um filme, vais querer ser produtor musical. 
Se gostavas de fazer criar efeitos sonoros para um jogo de playstation, vais querer ser produtor.
Se gostavas de passar música na rádio, então, se calhar, queres mesmo ser DJ.
E os exemplos continuam.

A verdade é que não estás limitado a um ou outro, podes ser os dois, podes não querer perder a oportunidade de tocar o teu próprio som. As opções são infinitas e nós não podemos escolher por ti. Esperemos que isto tenha ajudado, pelo menos a definir prioridades e a alinhar objectivos.
 
AIMEC
Academia Internacional de Música Eletrónica
Publicado em AIMEC
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